Sempre gostei de passar os finais de semana e as
festas de fim de ano na casa de meus avós, no interior de São Paulo. Eram
ocasiões onde, desde pequeno, me lembro plenamente de ser incríveis não apenas
pela família toda que se reunia ou pela comilança que, por muitas vezes, me
fazia sentar e desabotoar o zíper da calça para fazer o bucho ficar mais a
vontade. O fato é que, além de amar a companhia dos meus avós, algo na
propriedade da casa deles sempre me fez amar muito o lugar. Quando minha mãe me
contava a história de João e Maria, eu logo imaginava a casa de meus avós como
a casa de doces da bruxa que comia crianças, pois aquele lugar me agradava
tanto quanto doces mágicos de conto de fadas agradavam crianças.
Tive uma infância longa, plena e quase totalmente
feliz naquele lugar, se não fosse por conta daquela fatídica noite que me fez
nunca mais colocar os pés naquele lugar de novo.
Eu tinha por volta de oito ou nove anos. Era
verão, quase perto do natal, e eu estava passando as férias de verão na casa
dos meus avós. No sítio estavam ainda minha irmã caçula Heloísa, meu primo João
e minha prima Valéria. Todos nós havíamos passado de ano, e agora eu estava,
oficialmente na quarta-série. Meu pai me deu uma gorda mesada de presente, que
estava guardando para comprar um belo skate quando voltasse a capital. Chegamos
no sítio uma semana antes do natal, e assim que coloquei os pés nos terrenos de
meus avós, esperando aquela calmaria que sempre me invadia, eu me desapontei
totalmente. Ao invés de me sentir tranquilo, estava me sentindo como algo se
agitando no meu estômago. Para dizer a verdade, hoje percebo que parecia uma
mistura de temor e aflição, sensações que eu nunca havia provado antes. Pensei
que era cansaço por conta da viagem, e não dei muita atenção para aquilo
naquele momento. Meus avós preparam um delicioso jantar para todos nós, e então
fomos dormir e descansar da longa viagem que fizemos de carro. Pela primeira
vez em nove anos, acordei suado e ofegante no quarto que dividia com meu primo.
Eram exatamente três horas da manhã quando consultei meu relógio de pulso.
Quando deu exatamente três e um, tive a sensação horrível que estava sendo
observado por dois lugares do quarto. Meus cabelos se arrepiaram e eu senti um
aperto tão grande que tive de chamar minha mãe. Ela veio cambaleando de sono, e
disse obviamente que eu tive apenas um pesadelo. Imaginei que minha mãe tinha
razão, mas isso não me fez tirar os olhos do guarda-roupas, que era onde senti
que estava sendo observado. Assim, com minha mãe deitada do meu lado, consegui
dormir de novo até o amanhecer.
No outro dia, lá fomos eu, Heloísa, João e Valéria
para o vasto campo de nossos avós para iniciarmos nosso cronograma de
brincadeiras de verão, como dizia meu pai. Estávamos jogando vôlei, Heloísa e
eu contra João e Valéria. Valéria deu um saque muito forte e marcou ponto, mas
a bola foi parar longe, atrás de um carvalho velho e enorme que dava para os
fundos da propriedade, onde ficava um denso e (agora percebo) escuro matagal.
-Vá apanhar a bola, Nelson. Da outra vez eu fui-
disse minha irmã Heloísa para mim.
Dei um passo, mas a sensação de temor e aflição
tomou conta de mim novamente. Alguma coisa horrível parecia ter acontecido
próximo aquele carvalho e eu não queria me aproximar de lá.
- Tu vai ou não apanhar a bola, Nelson? Tá com
medo de alguma coisa invisível?- caçoou João, que era um ano mais novo e
parecia não se dar conta de nada.
-Vai logo!- reclamou Valéria.
Eu simplesmente não conseguia me mover. Fiquei
duro encarando o grande carvalho, que parecia ser inofensivo como sempre mas
alguma coisa não permitia me aproximar do carvalho. Heloísa se cansou e deu a
brincadeira por encerrada.
-Já chega, estou cansada e Nelson não quer brincar
mais, pelo que parece.
- Nós ganhamos!- bradou João.
Mentalmente agradecido por termos terminado a
brincadeira, entrei dentro da casa dos meus avós e fiquei observando de longe o
grande carvalho pela janela da cozinha. Imaginava que fosse uma ilusão de
ótica, mas num dos galhos do carvalho pude distinguir duas massas pretas meio
que chacoalhando ao vento.
Na véspera de natal, recebemos mais alguns
familiares e o sítio ficou cheio. Alguns dias haviam se passado desde o jogo de
vôlei, e apesar de não termos jogado mais, constantemente eu enxergava duas
massas pretas no carvalho, além da sensação de ser observado de noite ter
aumentado muito e me deixado completamente apavorado. Eu não via a hora de ir
embora, pela primeira vez na história da minha vida, do sítio dos meus avós.
Não reclamava com ninguém, mas uma coisa que eu não queria fazer era desgrudar da minha mãe. Contudo, era véspera
de natal e hoje eu estava feliz demais para perceber qualquer anormalidade que
estivesse acontecendo.
Comemos, bebemos (os adultos ficaram meio bêbados,
como todo ano) e por volta da meia noite e meia, logo após abrirmos os
presentes, eu me deitei no sofá da sala junto com meus primos, abri o zíper da
calça e senti que havia comido a melhor comida de toda minha vida. A velha
sensação de alegria estava de volta, relaxando meu corpo e me fazendo cair no
sono.
A primeira coisa que senti foi uma sensação
curiosa, como se estivessem me puxando pelo umbigo. Abri os olhos, e algo
estava errado, pois eu enxergava a mim mesmo dormindo no sofá. Enxergava também
meus primos, deitados dormindo a sono solto.
Então, um barulho a minha esquerda fez com que eu
me virasse e enxergasse as coisas mais pavorosas que vi na minha vida. Grudados
na parede, pareciam rastejar lentamente na direção onde meu corpo estava
adormecido. Um era muito preto com alguns contornos azulados escuro, o outro
era vermelho como se tivesse sido grotescamente torrado num forno até a carne
borrar e se fundir com sangue, criando uma massa vermelha. Haviam dois buracos
brancos e cegos no topo de ambos, e logo imaginei que aquilo seria algo como
seus olhos. No lugar da boca, um buraco escuro como piche, como dois poços que
sugavam todas as coisas boas e felizes do mundo. Eu queria a todo custo parar
de olhar para aquilo, voltar para meu corpo e sair correndo daquele lugar, mas
algo me prendia estático, flutuando alguns centímetros do chão, quando a coisa
azul falou. Era uma voz de criança, só que distorcida, infernal...
-Vamos logo, enquanto ele está fora do corpo. É a
minha vez de entrar...
-Você já entrou da última vez!- protestou a coisa
vermelha, num tom de bebê ainda mais infernal que o primeiro.- Agora é a minha
vez.
-Sua?
-Sim, minha! Você teve os Almeida da última vez,
agora é a minha vez de ter um corpo...
Lembrei vagamente de meus avós mencionarem, longe
das nossas vistas (ou eles pensavam que eram longe) que a família que morou nas
terras do sítio antes deles havia sido assassinada exatamente na época do
natal. Nunca se soube quem os assassinou, apenas que uma faca foi encontrada
junto do corpo de uma das crianças que, aparentemente teve a garganta cortada
na sala, onde parecia estar dormindo.
A sensação no umbigo voltou de novo, e eu lembro
de ver tudo em câmera lenta antes de voltar ao meu corpo. A coisa vermelha com
olhos brancos e cegos se projetando da parede, com aquele horrível barulho de
ossos sendo quebrados, e depois do berro infernal quando não conseguiu penetrar
meu corpo. Acordei suado, gritando e chorando e implorei para meus pais me
levarem embora. Naquela noite não dormi e tive a sensação que a qualquer hora
aquelas coisas apareceriam para me matar.
Na manhã de natal, meus pais não ficaram para o
almoço, tamanha era minha loucura para ir embora. Foram embora brigando comigo
o caminho todo até nossa casa. Quando chegamos em casa, um telefonema nos avisa
que nossa família havia morrido. Todos, aparentemente assassinados. Minha mãe
desmaiou, e pouco tempo depois também veio a falecer, pois o choque da notícia
havia pegado de surpresa. Dias depois, ficamos sabendo que meu primo João,
aparentemente havia sido o último a morrer, com um golpe de faca na garganta.
Passei os anos seguintes de minha vida
investigando o que havia acontecido naquela propriedade e, aos dezesseis anos,
encontrei uma coisa que colocou um ponto final no assunto. Aparentemente, por
volta do século 18, uma família de italianos havia adquirido aquela
propriedade. A mãe adoeceu e pouco tempo depois de chegar ali, faleceu. O pai
trabalhava muito e frequentemente viajava para a cidade. O casal tinha dois
filhos, uma menina e um menino, que passavam o maior tempo com uma babá que o
pai havia encontrado para eles. As crianças cresceram sem a presença da mãe, e
a pouca presença do pai fez com que crescessem mimados, egoístas e com um certo
prazer em maltratar animais. Certa vez, na manhã da véspera de natal, a babá
flagrou ambos enforcando o gato da família. Ela anunciou com severidade que
comunicaria ao pai e que eles seriam castigados. O pai, além de não passar
muito tempo em casa, era um homem ríspido e intolerante, além de ser
extremamente agressivo. A menção de serem castigados pelo pai apavorou tanto as
duas crianças, que elas, sem que a babá ou a cozinheira dessem conta,
desapareceram. Na manhã seguinte, no grande carvalho nos fundos do quintal, a
cozinheira desmaiou ao ver uma grotesca cena: as duas crianças enforcadas no
alto de um grande galho. Uma investigação foi feita, mas ninguém foi preso.
Concluiu-se que ambos haviam cometido suicídio, pois o pai estava fora, a babá
estava no sítio vizinho tomando alguns tragos e a cozinheira já tinha ido pra
casa horas antes. A babá culpou-se pelo ocorrido, e pouco tempo depois também
cometeu suicídio, com um tiro de espingarda na própria boca. O pai das crianças
vendeu a propriedade para uma certa família Almeida, que curiosamente acabou
sendo morta brutalmente no dia de natal..
.
Hoje, trinta anos depois, minha irmã Heloísa ainda
teima em dizer que foi coincidência. Mas eu... eu sei o que vi, e desde então
nunca mais comi demais nas noites de natal e tampouco viajei para o interior do
estado de novo...
