Era uma noite
fria e chuvosa quando o ocorrido aconteceu. Dois irmãos haviam capturado o gato
, o amordaçaram e o imobilizaram.
Aquele, entretanto, não era um gato comum. Era de Anna, uma mulher que todos acreditavam ser a bruxa da cidade.
Os dois irmãos estavam enfurecidos com o bicho, pois fora graças à seus constantes e seguidos miados que o dono da Confeitaria os pegara no flagra furtando bolos de casamento preparados ainda naquela mesma manhã. O confeiteiro deu-lhes uma tremenda e severa surra e jurou que se eles ousassem a dar mais voltinhas por aquelas bandas, chamaria a Polícia imediatamente. Os dois irmãos, então, tomados de ódio pelo gato, juraram vingança ao bicho e na tempestuosa noite de uma sexta-feira treze, apanharam o pobre bicho no quintal da própria dona.
Depois de amordaçado, o gato arregalou as pupilas, ofegando com medo. Os dois irmãos levaram o animal para um terreno abandonado, no alto de uma colina onde era possível ver a cidade escura e pacata bem lá embaixo. José, o menino mais velho e catarrento, levava consigo o machado cego do avô, e agora amolava a ferramenta numa pedra, relâmpagos distantes e fortes fazendo o objeto de metal vibrar sinistramente.
- A chuva está passando. –disse Vitória.
- Melhor assim. Prefiro que não esteja chovendo. –disse José vagamente.
- José? –a voz de Vitória parecia preocupada.
- Quê?
- E se os comentários que fazem forem realmente verdadeiros? E se o gato...
Mesmo no escuro, ela viu o irmão revirar os olhos com impaciência.
- E daí? Não vim até aqui, arriscando uma surra do vovô e da vovó para não fazer nada, Vitória. Muito menos depois de toda a trabalheira que tivemos para capturar esse infeliz.
- Mas e se as histórias?
- Não são! –cortou o irmão, agressivamente. –Vivemos numa cidade pequena cercada por gente ignorante. Isso tudo é babaquice! Será mesmo que você está mesmo comovida? Será que não se recorda da humilhação à que fomos expostos por causa desse merdinha que vomita bolas de pelos?
O comentário de José emudeceu a irmã e pareceu ter recobrado a coragem da menina aflita. Ela assentiu e o irmão começou a afiar o machado novamente. O gato não fazia nenhum barulho, como se ouvisse e compreendesse cada palavra que estava sendo dita.
Depois de algum tempo, José encerrou a fiação e disse para Vitória:
- Traga-o.
Vitória demorou um pouco para trazer o animal até a pedra, pois o gato debatia-se como um alucinado, pressentido que estava, agora, num apuro maior do que nunca. Quando depositou o animal no chão, prendendo-o com o joelho para que ele parasse de se debater e sufocar, Vitória viu José acender um fogo embaixo de uma grande panela preta, que lembrava muito um caldeirão de bruxa. Diziam que pertencia a própria Anna, e que ela colocara ali para praticar seus próprios rituais e feitiços. Ninguém jamais removeu o objeto de lá por medo e por não se atreverem a mexer no que não lhes diziam respeito.
Antes que o golpe final fosse desferido, o berro terrível do animal se fez ouvir por toda a colina, chegando aos ouvidos de alguns moradores da cidade. Rapidamente, José partiu os membros do animal, jogou-os no caldeirão e temperou-os com ervas e temperos.
Serviu então uma grande concha para si e para Vitória. Comeram o ensopado do gato, e até sorriram um para o outro, felizes. Antes de darem a ultima colherada, entretanto, ouviram um gemido débil. Arregalando os olhos, ambos os irmãos olharam para todos os lados, assustados e arrepiados. Não tinha ninguém ali com eles, mas os gemidos continuaram. Contudo, não eram gemidos, eram miados... miados que pareciam vir terrivelmente altos de dentro do caldeirão...
Quando chegaram ao topo da colina, pela manhã, alguns dos bravos moradores que correram à investigar a origem do pavoroso berro da noite anterior viram dois corpos caídos, esticados e frios no barro duro, próximo a uma pedra. O caldeirão ainda soltava fumaça espiralada e negra para o alto. Ao examinarem o rosto dos irmãos mortos, notaram que ambos tinham os olhos arregalados e bocas escancaradas... expressões de puro pavor.
A polícia jamais soube explicar o que tinha acontecido aos garotos. Os irmãos não tinham marcas de enforcamento, esfaqueamento, nem pareciam ter sofrido qualquer violência física. Estariam gozando de uma ótima saúde, se não estivessem, de fato, mortos. Pouco tempo depois, soube-se que o gato da velha Anna também havia desaparecido.
A história virou uma velha lenda local. Entretanto, a grande colina que alguns apelidaram de “O Miado do Gato” jamais voltou a ser visitada quando se podia evitar. Todos tinham uma sensação estranha no lugar, e os poucos que se arriscavam juravam ter ouvido um débil miado em noites sombrias de sextas-feiras treze, seguido pela visão de dois corpos estirados ao chão.
Aquele, entretanto, não era um gato comum. Era de Anna, uma mulher que todos acreditavam ser a bruxa da cidade.
Os dois irmãos estavam enfurecidos com o bicho, pois fora graças à seus constantes e seguidos miados que o dono da Confeitaria os pegara no flagra furtando bolos de casamento preparados ainda naquela mesma manhã. O confeiteiro deu-lhes uma tremenda e severa surra e jurou que se eles ousassem a dar mais voltinhas por aquelas bandas, chamaria a Polícia imediatamente. Os dois irmãos, então, tomados de ódio pelo gato, juraram vingança ao bicho e na tempestuosa noite de uma sexta-feira treze, apanharam o pobre bicho no quintal da própria dona.
Depois de amordaçado, o gato arregalou as pupilas, ofegando com medo. Os dois irmãos levaram o animal para um terreno abandonado, no alto de uma colina onde era possível ver a cidade escura e pacata bem lá embaixo. José, o menino mais velho e catarrento, levava consigo o machado cego do avô, e agora amolava a ferramenta numa pedra, relâmpagos distantes e fortes fazendo o objeto de metal vibrar sinistramente.
- A chuva está passando. –disse Vitória.
- Melhor assim. Prefiro que não esteja chovendo. –disse José vagamente.
- José? –a voz de Vitória parecia preocupada.
- Quê?
- E se os comentários que fazem forem realmente verdadeiros? E se o gato...
Mesmo no escuro, ela viu o irmão revirar os olhos com impaciência.
- E daí? Não vim até aqui, arriscando uma surra do vovô e da vovó para não fazer nada, Vitória. Muito menos depois de toda a trabalheira que tivemos para capturar esse infeliz.
- Mas e se as histórias?
- Não são! –cortou o irmão, agressivamente. –Vivemos numa cidade pequena cercada por gente ignorante. Isso tudo é babaquice! Será mesmo que você está mesmo comovida? Será que não se recorda da humilhação à que fomos expostos por causa desse merdinha que vomita bolas de pelos?
O comentário de José emudeceu a irmã e pareceu ter recobrado a coragem da menina aflita. Ela assentiu e o irmão começou a afiar o machado novamente. O gato não fazia nenhum barulho, como se ouvisse e compreendesse cada palavra que estava sendo dita.
Depois de algum tempo, José encerrou a fiação e disse para Vitória:
- Traga-o.
Vitória demorou um pouco para trazer o animal até a pedra, pois o gato debatia-se como um alucinado, pressentido que estava, agora, num apuro maior do que nunca. Quando depositou o animal no chão, prendendo-o com o joelho para que ele parasse de se debater e sufocar, Vitória viu José acender um fogo embaixo de uma grande panela preta, que lembrava muito um caldeirão de bruxa. Diziam que pertencia a própria Anna, e que ela colocara ali para praticar seus próprios rituais e feitiços. Ninguém jamais removeu o objeto de lá por medo e por não se atreverem a mexer no que não lhes diziam respeito.
Antes que o golpe final fosse desferido, o berro terrível do animal se fez ouvir por toda a colina, chegando aos ouvidos de alguns moradores da cidade. Rapidamente, José partiu os membros do animal, jogou-os no caldeirão e temperou-os com ervas e temperos.
Serviu então uma grande concha para si e para Vitória. Comeram o ensopado do gato, e até sorriram um para o outro, felizes. Antes de darem a ultima colherada, entretanto, ouviram um gemido débil. Arregalando os olhos, ambos os irmãos olharam para todos os lados, assustados e arrepiados. Não tinha ninguém ali com eles, mas os gemidos continuaram. Contudo, não eram gemidos, eram miados... miados que pareciam vir terrivelmente altos de dentro do caldeirão...
Quando chegaram ao topo da colina, pela manhã, alguns dos bravos moradores que correram à investigar a origem do pavoroso berro da noite anterior viram dois corpos caídos, esticados e frios no barro duro, próximo a uma pedra. O caldeirão ainda soltava fumaça espiralada e negra para o alto. Ao examinarem o rosto dos irmãos mortos, notaram que ambos tinham os olhos arregalados e bocas escancaradas... expressões de puro pavor.
A polícia jamais soube explicar o que tinha acontecido aos garotos. Os irmãos não tinham marcas de enforcamento, esfaqueamento, nem pareciam ter sofrido qualquer violência física. Estariam gozando de uma ótima saúde, se não estivessem, de fato, mortos. Pouco tempo depois, soube-se que o gato da velha Anna também havia desaparecido.
A história virou uma velha lenda local. Entretanto, a grande colina que alguns apelidaram de “O Miado do Gato” jamais voltou a ser visitada quando se podia evitar. Todos tinham uma sensação estranha no lugar, e os poucos que se arriscavam juravam ter ouvido um débil miado em noites sombrias de sextas-feiras treze, seguido pela visão de dois corpos estirados ao chão.
Conto de autoria de John von Butler